Índice de função do pé (FFI)

Índice de função do pé (FFI)

Índice de Função do Pé (Foot Function Index – FFI): Avaliação, Aplicação e Evidências Clínicas

O que é o Índice de Função do Pé (FFI)?

O Índice de Função do Pé (do inglês Foot Function Index – FFI) é um instrumento de avaliação clínica desenvolvido em 1991 com o objetivo primário de medir o impacto e a gravidade das patologias do pé e do tornozelo na funcionalidade geral do paciente.

Ele avalia as condições do paciente em três domínios principais: dor, incapacidade (dificuldade de movimento) e restrição de atividades diárias [1]. Trata-se de um questionário de autorrelato (autopreenchido pelo paciente), composto originalmente por 23 itens divididos em 3 subescalas distintas. Na prática clínica e científica, o examinador pode calcular tanto a pontuação total do índice quanto as pontuações individuais de cada subescala.

População-Alvo e Indicações

O FFI provou ser uma ferramenta diagnóstica e de acompanhamento extremamente razoável e eficaz para uso em:

  • Indivíduos com baixo nível de funcionalidade devido a distúrbios crônicos ou agudos nos pés [2].

  • Pacientes diagnosticados com Artrite Reumatoide, onde o acometimento articular dos pés é frequente e debilitante [1].

  • Pacientes com problemas ortopédicos não traumáticos do pé e do tornozelo (como fascite plantar, tendinopatias e deformidades) [3].

O índice pode ser amplamente utilizado tanto em configurações clínicas (consultórios de ortopedia e clínicas de fisioterapia) quanto em ambientes de pesquisa científica para validar a eficácia de intervenções conservadoras ou cirúrgicas.

Contraindicações de Uso: É importante notar que o FFI pode não ser o instrumento mais apropriado para indivíduos que funcionam em um nível igual ou superior ao da independência total nas atividades de vida diária (AVDs), como atletas de alto rendimento, pois pode ocorrer o “efeito teto” (onde o questionário não é sensível o suficiente para detectar limitações muito sutis) [2].

Método de Uso e Aplicação do Questionário Original

Para preencher o FFI, o paciente deve pontuar cada pergunta em uma escala visual analógica (EVA) ou numérica que varia de 0 (nenhuma dor ou dificuldade) a 10 (pior dor imaginável ou tão difícil que requer ajuda externa), escolhendo o número que melhor descreve a condição do seu pé ao longo da última semana. As pontuações são frequentemente registradas em uma escala de 0 a 100 mm, onde pontuações mais altas indicam pior dor e pior funcionalidade [1].

O questionário original é dividido nas seguintes categorias:

1. Subescala de Dor (9 Itens – Pontuação de 0 a 90)

Esta seção mede a intensidade da dor no pé sob diferentes cargas e situações biomecânicas.

  • Dor pela manhã ao dar o primeiro passo.

  • Dor ao ficar em pé descalço.

  • Dor ao caminhar descalço.

  • Dor ao ficar em pé usando sapatos.

  • Dor ao caminhar usando sapatos.

  • Dor ao ficar em pé usando órteses/palmilhas.

  • Dor ao caminhar usando órteses/palmilhas.

  • Qual é a intensidade da sua dor no final do dia?

  • Quão grave é a sua dor no seu pior momento?

2. Subescala de Incapacidade (9 Itens – Pontuação de 0 a 90)

Mede a dificuldade do paciente em realizar várias atividades funcionais biomecânicas devido aos problemas nos pés.

  • Dificuldade ao caminhar dentro de casa.

  • Dificuldade ao caminhar ao ar livre.

  • Dificuldade ao caminhar quatro quarteirões.

  • Dificuldade ao subir escadas.

  • Dificuldade ao descer escadas.

  • Dificuldade ao se levantar de uma cadeira.

  • Dificuldade ao ficar na ponta dos pés.

  • Dificuldade ao subir meios-fios (calçadas).

  • Dificuldade ao correr ou caminhar rápido.

3. Subescala de Limitação de Atividades (5 Itens – Pontuação de 0 a 50)

Mede as restrições psicossociais e físicas impostas pela dor e disfunção.

  • Ficar dentro de casa o dia todo devido aos pés.

  • Ficar na cama o dia todo devido aos pés.

  • Necessidade de usar um dispositivo auxiliar (bengala, andador, muletas) dentro de casa.

  • Necessidade de usar um dispositivo auxiliar ao ar livre.

  • Necessidade de limitar a atividade física de forma geral.

Evidências Científicas e Propriedades Psicométricas

Confiabilidade

O FFI apresenta altíssima confiabilidade clínica. A confiabilidade teste-reteste (a capacidade do teste de dar o mesmo resultado em dias diferentes) das pontuações totais e da subescala variou de 0,87 a 0,69, enquanto a consistência interna oscilou entre excelentes 0,96 e 0,73 [1].

Para estudos ortopédicos onde um pé serve como controle interno do outro, a confiabilidade lado a lado demonstrou um alfa de Cronbach variando de 0,94 a 0,96, sugerindo excelentes habilidades discriminatórias entre o pé esquerdo e o direito [5].

Validade

O FFI foi rigorosamente validado para uso em pacientes com artrite reumatoide [1] e problemas não traumáticos [3]. Uma análise fatorial com 87 pacientes apoiou a validade de construto do índice total. Houve forte correlação entre as pontuações do FFI e as medidas clínicas patológicas convencionais, atestando sua validade de critério.

Responsividade

O instrumento possui responsividade classificada positivamente (Nível 3). Isso significa que ele é altamente sensível para detectar mudanças clínicas ao longo do tempo, sendo excelente para verificar se o tratamento fisioterapêutico está, de fato, fazendo efeito [6].

Variações e Revisões do Instrumento

O FFI-5pt versus o FFI Original

Uma versão holandesa modificada, chamada FFI-5pt, substituiu as escalas visuais analógicas (EVA) por escalas de classificação verbal de 5 pontos. Os estudos demonstraram que as propriedades clinimétricas dessa versão são totalmente comparáveis às do FFI original, com a vantagem de que sua administração, interpretação e entrada de dados no sistema tomam significativamente menos tempo do clínico [7].

A Revisão do FFI (FFI-R) em 2006

Em 2006, o instrumento passou por uma grande modernização, resultando no FFI-R (Índice de Função do Pé Revisado), com base em críticas e sugestões de pesquisadores e clínicos [8]. As áreas de melhoria incluíram:

  • Integração com a base teórica da Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) da Organização Mundial da Saúde (OMS).

  • Revisão do modelo de medição da Teoria Clássica dos Testes, utilizando análises modernas de Rasch.

O FFI-R possui duas versões validadas:

  • Versão Longa (FFI-R L): 4 subescalas e 68 itens.

  • Versão Curta (FFI-R S): 34 itens.

Ambas demonstram propriedades psicométricas excelentes. Abaixo, detalhamos a estrutura da versão longa revisada (FFI-R), que pontua os itens de 0 a 6:

1. Dor e Rigidez (19 Itens)

Avaliado de 0 (Sem dor) a 6 (Pior dor imaginável) Inclui questões abrangentes como: dor antes de levantar, dor com e sem sapatos, rigidez ao acordar, dor antes de dormir, dor com cãibras musculares, dor ao usar palmilhas personalizadas e nível de rigidez em momentos de piora clínica.

2. Dificuldade Física (20 Itens)

Avaliado de 0 (Sem dificuldade) a 6 (Tão difícil que é incapaz de realizar) Expande a versão original adicionando dificuldades como: caminhar em terrenos irregulares, caminhar ladeira abaixo, manter a cadência (ritmo) normal de caminhada, manter o equilíbrio, limpar os pés, e operar os pedais de um veículo mecânico.

3. Limitação de Atividades (8 Itens)

Avaliado de 0 (Nenhum tempo) a 6 (O tempo todo) Adiciona fatores comportamentais como: tomar precauções extras em multidões por medo de lesões, escolher não usar transporte público e evitar dirigir automóveis devido às dores ou insegurança nos pés.

4. Questões Sociais e Emocionais (21 Itens)

Avaliado de 0 (Nenhum tempo) a 6 (O tempo todo) Esta é a maior novidade da revisão. Ela aborda o aspecto psicossocial da dor crônica, perguntando sobre: medo constante de cair, constrangimento por mancar, dificuldade em encontrar calçados adequados ou estéticos, sintomas depressivos secundários à dor, sono ruim, peso financeiro ou emocional de tomar medicamentos constantes, impacto no emprego, preocupação com a aparência dos pés e o medo de uma possível amputação (comum em pacientes diabéticos).

Referências Bibliográficas

  1. Budiman-Mak E, Conrad KJ, Roach KE. The Foot Function Index: a measure of foot pain and disability. J Clin Epidemiol. 1991;44:561–570.

  2. Agel J, et al. Reliability of the foot function index: a report of the AOFAS outcomes committee. Foot Ankle Int 2005, 26:962-967.

  3. Martin RL, Irrgang JJ. A survey of selfreported outcome instruments for the foot and ankle. J Orthop Sports Phys Ther. 2007;37:72–84.

  4. Kornelia Kulig, Stephen F Reisch. Nonsurgical Management of Posterior Tibial Tendon Dysfunction With Orthoses and Resistive Exercise: A Randomized Controlled Trial. Physical Therapy, 2009.

  5. Saag KG, et al. The Foot Function Index for measuring rheumatoid arthritis pain: evaluating side-to-side reliability. Foot Ankle Int 1996.

  6. Van Der Leeden M, et al. Systematic review of instruments measuring foot function, foot pain, and foot-related disability in patients with rheumatoid arthritis. Arthritis Care & Research 2008.

  7. Kuyvenhoven MM, et al. The foot function index with verbal rating scales (FFI-5pt): A clinimetric evaluation. J Rheumatol. 2002.

  8. Budiman-Mak E, Conrad K, Stuck R, Matters M. Theoretical Model and Rasch Analysis to Develop a Revised Foot Function Index. Foot and Ankle International. 2006.

Receba novidades sobre novos cursos

Cadastre seu e-mail para acompanhar as próximas turmas da CampCursos.

Ao cadastrar seu e-mail, você concorda em receber novidades sobre cursos da CampCursos. É possível cancelar a qualquer momento.

Add a Comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *