A síndrome de Baastrup, também conhecida como “kissing spine” ou doença de Baastrup, é uma condição caracterizada por alterações degenerativas dos processos espinhosos e tecidos moles interespinhosos de duas vértebras vizinhas. Descrita pela primeira vez por Baastrup em 1933, essa síndrome ocorre quando os processos espinhosos lombares adjacentes se aproximam uns dos outros, podendo formar uma nova articulação entre eles. A região lombar é a mais afetada, com L4-L5 sendo o nível mais frequente, embora também haja relatos na coluna cervical.
Anatomia clinicamente relevante na síndrome de Baastrup
A coluna lombar é composta por cinco vértebras, as maiores da coluna, que aumentam de tamanho de superior para inferior. Cada vértebra possui corpo vertebral, elementos posteriores (processo espinhoso e dois processos transversos) e pedículos. Os processos espinhosos são espessos, largos e orientados dorsal e caudalmente. A estabilidade lombar durante atividades funcionais depende principalmente dos músculos ligados aos elementos posteriores, submetendo os processos espinhosos a forças maiores durante os movimentos. Os ligamentos interespinhoso e supraespinhoso também contribuem para a estabilização, limitando a flexão excessiva e a separação dos processos espinhosos. A parte posterior desses ligamentos é inervada sensorialmente, fornecendo informações proprioceptivas e proteção contra forças excessivas. Na síndrome de Baastrup, o contato anormal entre os processos espinhosos pode levar à neoartrose e à formação de uma bursa adventícia nos tecidos moles interespinhosos.
Epidemiologia e fatores de risco
Estudos indicam que a idade média dos pacientes com doença de Baastrup é de 75 anos, sendo mais comum em idosos, mas podendo ocorrer em indivíduos mais jovens. O efeito do gênero ainda é desconhecido. Além da idade, outros fatores de risco incluem lordose excessiva (que aumenta a pressão mecânica), esforços repetitivos do ligamento interespinhoso com degeneração e colapso, postura incorreta, lesões traumáticas, espondilite tuberculosa, formas bilaterais de luxação congênita do quadril, enrijecimento da coluna torácica ou transição toracolombar e obesidade. A dor é principalmente mecânica, piorando com hiperextensão ou aumento da lordose, situações observadas em pacientes com obesidade, limitação nos movimentos do quadril e nadadores de elite. A síndrome pode ocorrer isoladamente ou associada a espondilolistese e espondilose com osteófitos e perda da altura do disco. A prevalência exata na população é incerta, mas alterações anormais dos espaços interespinhosos são relativamente frequentes.
Apresentação clínica da síndrome de Baastrup
Pacientes com síndrome de Baastrup geralmente apresentam lordose excessiva, resultando em pressão mecânica que causa dor e esforços repetitivos com degeneração e colapso. A queixa principal é dor nas costas na linha média, que pode irradiar distal e proximalmente, aumentando em extensão e aliviando em flexão. A palpação do ligamento interespinhoso patológico é dolorosa. Outros achados podem incluir edema, lesões císticas, esclerose, achatamento e aumento das superfícies articulares, bursite e, ocasionalmente, cistos epidurais ou massas fibróticas peridurais medianas. Rotação e flexão lateral costumam ser dolorosas, enquanto a flexão é o movimento menos doloroso. Em casos raros, a bursite interespinhosa pode causar estenose espinhal sintomática e claudicação neurogênica.
Diagnóstico diferencial
O diagnóstico diferencial da síndrome de Baastrup inclui espondilose lombar, tensão muscular, espondilolistese, fratura do processo espinhoso, fraturas por compressão vertebral, etiologias infecciosas da coluna, hiperostose proliferativa dos processos espinhosos lombares, doença degenerativa da coluna, cistos, ossificação do ligamento longitudinal posterior e metástases ósseas escleróticas para coluna.
Procedimentos diagnósticos
O diagnóstico da síndrome de Baastrup requer modalidades de imagem, pois a avaliação clínica isolada é insuficiente. A tomografia computadorizada (TC) diagnostica a condição quando três critérios estão presentes: aproximação e contato entre os processos espinhosos lombares, achatamento e ampliação das superfícies de articulação e esclerose reativa dos fragmentos superiores e inferiores dos processos adjacentes. A TC também pode revelar alterações degenerativas como hipertrofia das articulações facetárias, hérnia de disco ou espondilolistese, mas é limitada na avaliação de tecidos moles e bursas interespinhosas. A radiografia (raios X) mostra achados semelhantes, com menor custo e dose de radiação, porém com qualidade de imagem inferior, especialmente nos fragmentos lombares inferiores. A ressonância magnética (RM) é superior para detectar fluido bursal interespinhoso, cistos peridurais pós-centrais, edema ósseo e compressão do saco tecal posterior. A RM não utiliza radiação ionizante e oferece imagens detalhadas em múltiplos planos. Um diagnóstico preciso é essencial para evitar erros de manejo, pois a síndrome é frequentemente diagnosticada erroneamente.
Manejo médico
O tratamento visa reduzir a dor lombar e restaurar as atividades de vida diária. Pode ser conservador ou cirúrgico. Quando a RM mostra alterações inflamatórias ativas ou edema, injeções localizadas de analgésicos ou AINEs podem ser tentadas, administradas quinzenalmente sob controle fluoroscópico, evitando-se movimentos de extensão lombar durante o período. Se as injeções não melhorarem os sintomas, o tratamento cirúrgico é recomendado. As opções cirúrgicas incluem excisão da bursa, remoção parcial ou total do processo espinhoso ou osteotomia, com permanência hospitalar média de até 31 dias. No entanto, resultados insatisfatórios e dor pós-operatória são relatados, e a eficácia cirúrgica é observada em apenas 15 a 40% dos casos. Uma alternativa menos invasiva são os dispositivos espaçadores interespinhosos, como o X-STOP, que aumentam a distância entre os processos espinhosos e o forame intervertebral. Resultados de curto prazo mostram melhorias, mas a durabilidade do alívio sintomático e complicações a longo prazo ainda precisam de investigação.
Fisioterapia na síndrome de Baastrup
O manejo fisioterapêutico tem como objetivos principais a redução da dor, a correção da hiperlordose e a melhora da função da coluna vertebral. Após o controle da dor, a intervenção inclui educação postural, fortalecimento dos músculos abdominais e espinhais e alongamento dos flexores do quadril. O fortalecimento do tronco é fundamental para tratar a hiperlordose, pois músculos abdominais fracos transferem a responsabilidade da sustentação para os flexores do quadril, aumentando a lordose. O alongamento dos flexores do quadril, como o reto femoral, é importante porque o encurtamento desses músculos pode afetar a função dos glúteos e espinhais. Um exemplo de alongamento é ajoelhar-se com um pé à frente, empurrar os quadris para frente mantendo o tronco ereto, sustentar por 20 segundos e repetir 3 a 5 vezes de cada lado. O fortalecimento do glúteo máximo também é recomendado, pois sua ativação está diminuída em pacientes com dor lombar crônica. Curso de Pilates Clínico Além disso, a fisioterapia pode ajudar a reduzir danos neuromusculares provocados pela doença, e outras modalidades como terapia de calor, ergoterapia e técnicas de relaxamento muscular podem ser úteis.
Conclusão
A síndrome de Baastrup é uma condição degenerativa caracterizada pelo contato entre processos espinhosos adjacentes, mais comum na coluna lombar, especialmente em idosos com doença degenerativa do disco ou hiperlordose. O diagnóstico preciso por imagem é crucial, pois a condição é frequentemente subdiagnosticada. O tratamento pode envolver injeções, cirurgia ou espaçadores, mas a fisioterapia desempenha um papel essencial na redução da dor, correção postural e fortalecimento muscular, contribuindo para a melhora funcional e qualidade de vida dos pacientes.
Perguntas frequentes
O que é a síndrome de Baastrup?
A síndrome de Baastrup, também conhecida como kissing spine, é uma condição degenerativa em que os processos espinhosos de vértebras adjacentes se aproximam e entram em contato, podendo formar uma nova articulação e causar dor lombar.
Quais são os sintomas da síndrome de Baastrup?
Os principais sintomas incluem dor na linha média das costas, que piora com a extensão e alivia com a flexão, além de dor à palpação no ligamento interespinhoso afetado. Rotação e flexão lateral também podem ser dolorosas.
Como é feito o diagnóstico da síndrome de Baastrup?
O diagnóstico é feito por exames de imagem, como tomografia computadorizada, radiografia ou ressonância magnética. A TC mostra aproximação e esclerose dos processos espinhosos, enquanto a RM pode revelar bursite interespinhosa e edema.
Qual o tratamento fisioterapêutico para a síndrome de Baastrup?
A fisioterapia inclui educação postural, fortalecimento dos músculos abdominais e espinhais, alongamento dos flexores do quadril e correção da hiperlordose para reduzir a pressão mecânica sobre os processos espinhosos.
A síndrome de Baastrup tem cura?
Não há cura definitiva, mas o tratamento conservador com injeções e fisioterapia pode controlar a dor e melhorar a função. Em casos refratários, opções cirúrgicas como remoção do processo espinhoso ou uso de espaçadores podem ser consideradas.
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