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Lesão do Nervo Axilar

A lesão do nervo axilar é uma condição que afeta o nervo circunflexo, responsável pela inervação motora dos músculos deltóide e redondo menor. Esse tipo de lesão pode ocorrer por forças compressivas, tração após luxação anterior do ombro ou movimentos forçados de abdução da articulação do ombro. Os sinais e sintomas incluem dor na região deltóide e anterior do ombro, perda de movimento ou sensibilidade na área, além de fraqueza nos músculos inervados, comprometendo a abdução e a rotação externa. Uma lesão verdadeira do nervo axilar, como mononeuropatia, não costuma alterar os reflexos locais.

Epidemiologia e Etiologia da Lesão do Nervo Axilar

A paralisia do nervo axilar é relativamente rara, representando apenas 3% a 6% de todas as patologias do plexo braquial. A luxação anterior do ombro é a causa mais comum, podendo gerar trauma direto ao nervo. Estatisticamente, a proporção entre homens e mulheres é de 3:1, e entre 9% e 65% das lesões no ombro envolvem o nervo axilar. A incidência de lesões nervosas aumenta significativamente em pacientes com mais de 50 anos, especialmente se houver fratura associada ou se a luxação durar mais de 12 horas. A presença de fratura da cabeça umeral dobra a incidência de lesão nervosa.

Mecanismos de Lesão

Os principais mecanismos incluem luxação anterior ou inferior da cabeça do úmero, fratura do colo cirúrgico do úmero, abdução forçada do ombro e queda sobre a mão estendida (lesão FOOSH). Durante a luxação, o estiramento excessivo do nervo axilar sobre a cabeça umeral pode causar desde o alongamento da porção livre do nervo até avulsões do cordão posterior do plexo braquial. O nervo é vulnerável em vários pontos: origem no cordão posterior, face ântero-inferior do subescapular, cápsula do ombro, espaço quadrilateral e superfície subfascial do deltóide.

Classificação das Lesões Nervosas

As lesões nervosas são classificadas em três categorias principais, com base na classificação de Sunderland:

  • Neuropraxia (1º grau): axônio e camadas de tecido conjuntivo intactos, com diminuição da condução. Recuperação completa em 85% a 100% dos casos com manejo conservador em 6 a 12 meses.
  • Axonotmese (2º grau): dano axonal com preservação do endoneuro, que serve como guia para regeneração. Taxa de recuperação próxima a 80%, com sinais evidentes entre 3 e 4 meses.
  • Neurotmese (3º a 5º grau): dano axonal e ruptura variável das bainhas conjuntivas. Sem intervenção cirúrgica, geralmente não há recuperação.

A regeneração nervosa ocorre a uma taxa estimada de 1 mm por dia, tornando a recuperação um processo longo. O fisioterapeuta deve ajudar a gerenciar as expectativas do paciente.

Apresentação Clínica

A disfunção do nervo axilar pode ter apresentação variável e passar despercebida, pois a luxação ou fratura mascara os sintomas. No exame subjetivo, o paciente pode relatar dor leve, maçante e profunda no ombro lateral ou anterior, com irradiação ocasional para o braço proximal. Dormência e formigamento no braço lateral e/ou aspecto posterior do ombro (território C5-C6) podem persistir por 2 a 4 semanas. Outros sintomas incluem sensação de instabilidade, fraqueza para flexão, abdução e rotação externa, e fadiga precoce em atividades aéreas, levantamento de peso ou arremesso. Fatores de alívio comuns são repouso, gelo, analgésicos e anti-inflamatórios. Muitos atletas podem ser assintomáticos, queixando-se apenas de fraqueza e fadiga.

Diagnóstico Diferencial

Uma lesão do nervo axilar associada à luxação do ombro pode se apresentar de forma semelhante a outras condições:

  • Tríade Infeliz: luxação do ombro com ruptura do manguito rotador e lesão do nervo axilar, ocorrendo em 9-18% das luxações anteriores, com risco aumentado após os 40 anos.
  • Síndrome do Espaço Quadrilateral (QSS): compressão da artéria circunflexa posterior e do nervo axilar no espaço quadrilateral, comum em esportes de arremesso e natação. Caracteriza-se por dor generalizada, parestesias não dermatoméricas, ponto doloroso no espaço quadrilateral e achados positivos na arteriografia com abdução e rotação externa.
  • Lesão do cordão posterior do plexo braquial.
  • Radiculopatia cervical (C5-C6).
  • Síndrome de Parsonage-Turner (PTS): condição idiopática rara com dor intensa aguda sem mecanismo de lesão, seguida de fraqueza residual. Os sintomas não se relacionam com movimentos cervicais.
  • Outros nervos periféricos: nervo acessório espinhal (incapacidade de abduzir além de 90°), nervo torácico longo (dor na flexão completa do braço), nervo supraescapular (dor na flexão anterior, fraqueza), nervo musculocutâneo (flexão de cotovelo fraca).

Avaliação Fisioterapêutica

O exame físico deve iniciar com triagem completa da coluna cervical, avaliando dermátomos, miótomos e reflexos da extremidade superior. Em casos de luxação recente, verificar pulso radial, sensibilidade e movimento dos dedos. A avaliação clínica inclui inspeção visual, palpação, testes de força muscular, amplitude de movimento e testes especiais. A atrofia do deltóide pode ser visível, e o sinal do atraso da extensão (queda do braço ao tentar manter a extensão passiva) é um teste útil. A sensibilidade do exame sensorial é baixa (7%), reforçando a necessidade de avaliação eletrodiagnóstica em casos de fraqueza persistente.

Diagnóstico Clínico e por Imagem

O diagnóstico é confirmado por exame clínico detalhado e estudos de eletromiografia (EMG) ou condução nervosa. A EMG é o teste de escolha, mas danos significativos podem não ser detectados até 2-3 semanas após a lesão. Ela permite distinguir atrofia por dor de lesão nervosa e monitorar a recuperação. A ressonância magnética raramente é usada na avaliação inicial, sendo útil em diagnósticos diferenciais, mas um resultado normal não exclui lesão nervosa.

Tratamento Médico

Cirurgia

Há incerteza sobre o momento ideal para exploração cirúrgica, variando de 3 a 12 meses após a lesão. As indicações incluem suspeita de compressão por osteófitos, ausência de recuperação em 3-4 meses, ou falta de melhora após 3-6 meses de tratamento conservador. A cirurgia para instabilidade em jovens reduz o risco de novas luxações e lesão nervosa. Os procedimentos incluem neurólise, enxerto de nervo (comum uso do nervo sural) e neurotização. O prognóstico cirúrgico é bom em 90% dos pacientes, especialmente se realizado em até 6 meses.

Redução Não Cirúrgica

Após redução fechada da luxação, a imobilização varia conforme a idade: 4-6 semanas para homens jovens e 7-10 dias para idosos. Deve-se ter cautela na redução manipulativa para não agravar a lesão nervosa. Outros tratamentos incluem AINEs, repouso e gelo.

Fisioterapia na Lesão do Nervo Axilar

O manejo fisioterapêutico segue princípios semelhantes ao tratamento da luxação isolada, com ênfase no fortalecimento de deltóide e redondo menor, respeitando o tempo de cicatrização tecidual e evitando rigidez articular. A pesquisa atual é limitada, mas as fases de reabilitação são bem estabelecidas.

Tratamento Não Cirúrgico

0 a 2 semanas

  • Imobilização com tipoia após redução.
  • Mobilidade articular: exercícios passivos de flexão, extensão, abdução, adução e rotação interna; exercícios ativos para cotovelo, punho e mão, mantendo dor ≤ 3/10.

2 a 4 semanas

  • Amplitude de movimento passiva/ativa-assistida para ombro (flexão, rotação interna, adução). Evitar rotação externa e abdução no final da amplitude.
  • Exercícios ativos para cotovelo, punho e mão; exercícios pendulares para a glenoumeral.
  • Fortalecimento de músculos posturais/periescapulares e reeducação neuromuscular.
  • Precaução: não ultrapassar 90° de abdução e flexão, e rotação externa além do neutro nas primeiras 3 semanas.

4 a 6 semanas

  • Exercícios resistidos leves para deltóide, manguito rotador e músculos posturais.
  • Atividades em cadeia cinética fechada: flexões na parede, mesa e solo; transferências de peso.

6 semanas até a alta

  • Continuar amplitude de movimento, estabilização glenoumeral e escapulotorácica, propriocepção e mobilidade articular.
  • Iniciar atividades específicas do esporte ou trabalho, progredindo conforme a função. O retorno ao esporte é sugerido em torno de 12 semanas para atividades gerais e 16 semanas para esportes competitivos, com pelo menos 80% de força muscular e melhora na EMG.
  • O tratamento conservador pode durar de 3 a 6 meses. O fisioterapeuta deve monitorar a reinervação e comunicar ao médico se não houver melhora em 3-4 meses.

Fisioterapia Pós-Cirúrgica

Após reparo cirúrgico, recomenda-se imobilização por 4 a 6 semanas, seguida de reabilitação focada em ganho de amplitude de movimento e fortalecimento do ombro.

Conclusão

A lesão do nervo axilar, embora rara, exige atenção especial do fisioterapeuta, especialmente após luxações do ombro. O prognóstico é favorável com detecção precoce, devido ao curto trajeto de regeneração nervosa. O tratamento deve ser individualizado, combinando imobilização adequada, recuperação progressiva da função e fortalecimento muscular. A comunicação constante com a equipe médica é essencial para definir a necessidade de intervenção cirúrgica. Para aprofundar seus conhecimentos em avaliação e tratamento de disfunções musculoesqueléticas, considere explorar formações especializadas. Curso de Anatomia Palpatória

Perguntas frequentes

O que é uma lesão do nervo axilar?

É um trauma no nervo axilar, que pode ocorrer por compressão, tração após luxação do ombro ou movimento forçado de abdução, afetando a inervação dos músculos deltóide e redondo menor.

Quais são os sintomas de uma lesão do nervo axilar?

Os sintomas incluem dor no ombro, perda de movimento ou sensibilidade na área, fraqueza nos músculos deltóide e redondo menor, e possível dormência ou formigamento no braço lateral.

Como é feito o diagnóstico da lesão do nervo axilar?

O diagnóstico é baseado em exame clínico detalhado e confirmado por eletromiografia (EMG) ou teste de condução nervosa, que pode detectar a perda de condução nervosa.

Qual o tratamento fisioterapêutico para lesão do nervo axilar?

O tratamento inclui imobilização inicial, exercícios de amplitude de movimento, fortalecimento progressivo de deltóide e redondo menor, reeducação neuromuscular e retorno gradual às atividades, monitorando a recuperação nervosa.

Quando a cirurgia é indicada para lesão do nervo axilar?

A cirurgia pode ser indicada se não houver recuperação nervosa após 3 a 4 meses, ausência de melhora com tratamento conservador por 3 a 6 meses, ou suspeita de compressão no espaço quadrilateral.